‘COLÔNIA’ – Nova série retrata uma das páginas mais negras da história de Barbacena

Lançada no mês passado pelo Canal Brasil, produção mostra as atrocidades ocorridas no Hospital Colônia, onde morreram cerca de 60 mil pessoas

Paulo Emílio Gonçalves/Portal CB

A série “Colônia”, criada e dirigida por André Ristum, lançada no mês passado pelo Canal Brasil, retrata uma das páginas mais negras da história de Barbacena: o Hospital Colônia.

Baseado no livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista mineira Daniela Arbex, a produção mostra, com detalhes, as atrocidades que ocorriam no hospício em Barbacena, onde os internos viviam em condições sub-humanas. Na instituição psiquiátrica morreram cerca de 60 mil pessoas, muitas delas vítimas de maus tratos, frio, tortura, eletro-choque e abandono.

Inspirada em fatos reais, a série conta a história de Elisa (Fernanda Marques), uma jovem de 23 anos filha de um rico fazendeiro do interior de São Paulo, que se engravidou do noivo. Por “desonrar” a família e contrariar os planos do pai, que sonhava em casar a filha com um vizinho do mesmo ramo e também rico, o fazendeiro consegue um atestado falso de esquizofrenia e manda a filha para o Hospital Colônia, em Barbacena. Lá, após chegar em um trem, a menina, ainda com esperança de se tratar de um engano, tenta explicar, em vão, o que ocorreu para os médicos e funcionários.

Daí, Elisa, com quatro meses de gravidez, começa a viver o horror do hospício, que era comparado a um campo de concentração, onde mais de 70% dos internos, assim como ela, não tinham nenhum transtorno psiquiátrico. Simplesmente eram enviados pra lá, entre outros motivos, por serem indigentes, negros, alcoólatras, homossexuais, amantes de políticos, classificados como comunistas e subversivos, por desonrarem a família, como no caso de Elisa ou apenas por serem considerados incômodos para a sociedade.

No elenco, além da protagonista Fernanda Marques, Andréia Horta, Augusto Madeira, Bukassa Kabengele, Arlindo Lopes, Rejane Faria, Henrique Schafer e Eduardo Moscovis.

A série, composta por dez episódios, foi filmada toda em preto e branco e é passada no hospital Colônia no ano de 1971. O diretor André Ristum imaginava que a vida dos internos não tinha nenhum brilho. “Pensando na história, eu só via imagens em preto e branco, não conseguia enxergar esse lugar de outra maneira. Acho que por conta das referências de fotos e filmes da época, mas, de fato, por imaginar que a vida dessas pessoas não tinha nenhum brilho, era uma coisa muito monotemática”, disse Ristum em uma entrevista ao jornal Correio Brasiliense.

“Colônia” foi gravada em locações entre Campinas e São Paulo. O hospício foi reconstituído em um edifício antigo no bairro do Ipiranga, na capital paulista. A produção está disponível também na Globoplay.

O Hospital Colônia

O Hospital Colônia de Barbacena foi fundado em 1903. Após pouco tempo de sua inauguração, tornou-se referência nacional em psiquiatria, sendo procurado por diversas famílias que buscavam tratamento para seus “desajustados”.

Os pacientes, oriundos de diversos estados do Brasil, chegavam a Barbacena por trem, em vagões abarrotados, cuja condição desumana fez surgir a expressão “trem de doido” para significar viagem ao inferno.

Enquanto o plano do Hospital Colônia era primariamente atender a pessoas com transtornos mentais, o local acabou por tornar-se um campo de extermínio para aqueles que não se adequavam aos padrões normativos da época ou não atendiam aos interesses políticos de classes dominantes.

O Hospital Colônia de Barbacena foi fechado no fim da década de 1980. Alguns pacientes que sobreviveram à época da barbárie hoje recebem acompanhamento no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), que é uma instituição vinculada à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG).

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